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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O TURISMO TEM PÉS DE BARRO – por Carlos de Matos Gomes


Passando e não passeando por Lisboa, pelo Porto e pelo Algarve, lendo ou ouvindo as notícias, é grande a satisfação nesta Páscoa por estarem as cidades e as serras, as terras e as praias apinhadas de multidões de turistas nacionais e estrangeiros, que preenchem a capacidade hoteleira, como dizem os entrevistados, a 100%, ou mais.
Para estes a mais estão a ser construídos de raiz, ou adaptados a partir de antigos edifícios, hotéis de todas as estrelas, (já não há pensões), hosteles, habitações de turismo temporário, parques de campismo. Todos os dias chegam aos portos mastodontes que flutuam com arranha-ceús no lombo, carregados de turistas na versão de cruzeiro. As revistas da especialidade, nacionais e estrangeiras, premeiam Portugal como o melhor destino turístico do mundo. Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Braga, mas também a Nazaré, Viana do Castelo, Idanha a Velha, Belmonte, a Guarda, Beja, Monsaraz, Mértola e Alcoutim, sem esquecer Óbidos e Sintra, Cascais e Peniche são destinos que ninguém pode perder. Já vi escrito e fotografado que Portugal tem a melhor praia do mundo, a melhor paisagem do mundo, a melhor gastronomia do mundo… até o melhor jogador de futebol do mundo. O desemprego, a desigualdade, o abandono escolar e o dos velhos, a precariedade, o salário mínimo… infelizmente, se não são dos piores do mundo, são dos piores da Europa. O turismo aproveita o melhor do mundo para os turistas e deixa o pior do mundo para os indígenas. O colonialismo baseou-se exactamente no mesmo princípio de trocas desiguais!
A propósito de gastronomia, não há dia em que não seja anunciado um evento gastronómico, da alheira à empada, do choco ao bacalhau, do chocolate aos ovos batidos em clara, do bolo rainha à amêndoa tostada, da francesinha ao coirato, do caldo verde às migas, da lampreia às enguias, dos maranhos aos túbaros, das cadelinhas às iscas, do camarão ao lingueirão. Não há espécie vegetal e animal que escape a um festival gastronómico! Estamos como os chineses: tudo o que está debaixo do sol é para comer e festivalar. O problema tem sido escoar o porco nacional, o leite nacional, ou andamos a comer pouco ou andamos a importar demais! Em português do Brasil, Portugal virou estância de férias! Ou um arraial
Não quero ser desmancha-prazeres, mas tenho a vetusta idade que me permite conhecer um pouco de história do meu país, pelo menos do passado recente e alguma coisa da de outros povos. Talvez não sejamos diferentes e esta febre do turismo seja provocada pelo vírus da estirpe que provocou a febre do ouro e infetou milhões de emigrantes europeus que embarcaram, febris para o Eldorado da América. Os pesquisadores do ouro acabaram como desempregados e não como milionários, excepto os que, como os avós de Donald Trump, o candidato a presidente, se aproveitaram da febre do ouro para explorar os crentes, abrindo pensões, bares e casas de alterne para os pesquisadores afogarem em álcool e sexo o desespero pelas minas que fechavam mal se esgotava o veio esgravatado pelas multidões que se abateram sobre ele.
Estas febres só servem para os que aproveitam a maré enquanto ela enche e saem mal começa a descer. Em Portugal já passámos por várias febres, mas nenhuma com a dimensão desta do turismo. Recordo a febre das croissanterias, das lojas de aluguer de vídeo, dos plantadores de peras, de morangos, de Kiwis, dos tupaweres, dos apartamentos e das viagens em timesharing, das férias a prestações em Benidorm, dos investimentos na bolsa do capitalismo popular de Cavaco Silva, que ele se encarregou de dinamitar quando anunciou que andavam a vender gato por lebre. Por acaso os vendedores eram os seus amigos do BPN! Esses safaram-se.
Compreendo que quem não tem cão caça com gato. Portugal nunca foi um país de indústria nem de agricultura desenvolvida, foi sempre uma sociedade de comércio e aventura. Mas, a partir de Pombal, lá se foi criando um aparelho produtivo que resistiu até aos meados dos anos 80. O soarismo da Europa connosco e o cavaquismo do dinheiro fácil, destruíram o aparelho produtivo com o verdadeiro programa da União Económica: colocar os países mais pequenos e frágeis a restituir os empréstimos aos prestamistas com juros à cabeça e criar uma dívida em permanente crescimento, através da sempre maior necessidade de importações, resultante da sempre maior destruição da capacidade de produzir internamente. Dinheiro barato e fácil para poder dizer ao pagode: importar é mais barato que produzir! O futuro está nos serviços, diziam comentadores tão conceituados como os de hoje, sendo que alguns são os mesmos. O objectivo era absorver os desempregados da indústria e da agricultura, atomizando a força de trabalho, fazendo do desempregado um patrão entregue à sua sorte – os serviços assentam em micro empresas, empresas familiares, trabalhadores precários, logo baixos salários, baixos custos sociais, pequenos investimentos bancários, mas muito desmultiplicados, o que diminui o risco. O típico menu do liberalismo. Onde havia um operário ou um agricultor, passou a existir um dono de café-restaurante, um vendedor de pipocas, uma rapariga da vida com anúncio no jornal e número de contribuinte.
A febre do turismo, tem todas as condições para ser mais uma ilusão e causar mais um desastre económico e social. Como estamos empenhados, vendemos barato. Vendemos tudo barato, o trabalho, que é servil e precário, os terrenos, o património, e, principalmente, vendemos, ou alienamos o que resta de qualidade. A gastronomia, por exemplo. É evidente que a gastronomia dos locais para turistas só é boa para os turistas. Quando eles se aperceberem que, na maioria dos casos, estão a comer mal e porcamente, deixam de vir. Quando o nosso património estiver tão vulgarizado que já não haja multidões para ver os Jerónimos ou a Torre de Belém, deixam de vir.
O turismo é a mais frágil das actividades económicas, porque está dependente do bom funcionamento das economias dos países a montante, que produzem bens e serviços reais. Está dependente dos que fabricam automóveis, motores, aviões, computadores, dos que extraem e exportam matérias primas essenciais, dos cereais ao petróleo, dos que lhes acrescentam valor. Está dependente de casas demasiado aleatórias, um atentado, um cataclismo, uma epidemia, por exemplo. O turismo devia ser uma actividade complementar na economia nacional, e não a actividade principal.
A atual febre do turismo, com a qual todos os agentes indígenas parecem tão contentes, assenta – para piorar as perspectivas – no turismo de massas – pacotes baratos, viagens low cost, hotel com preços esmagados, circuitos turísticos padronizados. Este modelo funciona em Londres, em Paris, em Roma, um pouco em Berlim, em Nova Iorque, em São Francisco, mas não pode funcionar em Portugal, que tem mais ou menos a mesma população, mas é um país disperso por 89 mil quilómetros quadrados, enquanto essas metrópoles são pontos de atração concentrados e instalados no topo da cadeia de geração de riqueza de potências como a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, a Itália ou os Estados Unidos.
Bastará um agravamento da crise na Europa e nos Estados Unidos – e ela é tão provável – e os turistas desaparecem de um dia para o outro, com muito maior velocidade do que aquela com que chegaram Então, infelizmente, ouviremos os mesmos que hoje estão encantados a carpir mágoas e a baixar ainda mais os preços, a despedir, a diminuir a qualidade, a pedir apoios… com os tuk tuk a enferrujar, os bares e mini bares encerrados, os jovens que se meteram na aventura de abrir um restaurante a emigrarem.
Portugal está na moda, mas todas as modas passam de moda. O turismo tem pés de barro e devíamos encontrar alternativas para ele antes de desabar…

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Eco-Social Tour no âmbito do Projecto QuNeCo - Quality Network Cooperation, 11 de Junho de 2016


No âmbito do Projecto QuNeCo - Quality Network Cooperation que decorreu em Famalicão, organziado pela YUPI, o Projecto TERRAMOTE351 dinamizou um Tour Eco-Social com especial incidência em parte do Centro Histórico da Cidade do Porto.
Para além de um enquadramento histórico, foram abordadas questão relacionas com especulação imobiliária no centro histórico, gentrificação, impactos da globalização na comunidade local. Etc.
Foram cerca de 3 horas recheadas de óptimas partilhas e descontração com educadores de Portugal, Eslováquia, Áustria, Islândia, China, Honduras, Perú e Argentina.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Meeting Porto “Side B” - Friday, 22th of July Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto


Meeting Porto “Side B” - Friday, 22th of July Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto
Eco-Social Tour guided by the project Terramote351
the Porto behind the frontage

´
Terramote351” – Meeting Porto “Side B”, the real Porto
Meeting Porto “Side B” (Eco-Social Tour) is a project inside the Terramote351 Project that aims to guide foreigner visitors or inhabitants through the less well known side of Porto: Porto side B. Therefore it´s not a conventional touristic tour. It´s a tour focusing on social, ecological, cultural aspects, in spite of the fact that history is always a very relevant element.
Discovering the past, roaming the present and dreaming the future are proposals contained in this walk by some of the hidden or forgotten treasures from Porto city. Old rural farms, old nobel houses, city gardens, sublime panoramic views… and a lot, lot more. Above all, a Tour that for sure will surprise you at each step.

Terramote351 – Intervention and Eco-Social Tours
Terramote351 is a pioneer project, arising from Porto city, and it exists to develop the principals and values of Eco-Social tourism.


Always with the purpose to aware people to the local realities throughout Eco-Social Tours with historical, cultural and, above all, Eco-social relevance.
The tours work in an informal and familiar way. At the tours people interact and share: Them experiences, knowledge and visions.
They also are discovery and adventure tours, where secrets of the urban and rural spaces are unraveled with all their…plainness.

Terramote351 Eco-Social Tour – Meeting Porto “Side B”
Friday, 22th of July Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto (around the centre of Porto and about the many different stories you can find in the streets of this ancient district)
10.15 am

Meeting point: In “Praça da Batalha”, in front of Sto Ildefonso Church (very near Rua de Sta Catarina):

Important information about the tour:
Difficulty: accessible
Time: around 2h30
Logistics: take comfortable clothing adaptable to the climate circumstances of the day.
Participation fee: with the amount that you feel “Fair” in the end of the circuit (open contribution, minimum suggested 5,00)
Registrations: maximum of 12 participants (it will be an activity with a reduced number of participants) and the places will be taken when the registrations are done with confirmation.
Lunch: in the end, we will probably have lunch in “Casa da Horta – Cultural Association”, so you are welcomed if you want to join us and we can discuss a bit more about some of the aspects that we observed during the tour
Other Reservations: It´s possible, if booked in advanced, to book private Eco-Social Tour with Terramote351 Project. Contact us!

How to apply:
Book your tour sending your personal information to:

or by mobile phone:
(+351) 93 447 6236 (Pedro J. Pereira)

or in Casa da Horta

Information on the blog:
facebook event:

  • More information

Terramote351 - Intervention and Eco-Social Tours

Note: Terramote351 is a project with a really informal and personal nature, so it’s an activity that it is not covered by any type of insurance, the participants are responsible for anything that happens, or, depending on the perspective, the destiny is… ;O) The contribution is destined to support the various organization costs and to support the Terramote351 - Intervention and Eco-Social Tours project development.
Spread the word: we appreciate all the possible and positive (of course) share of our project trough your contacts, it´s our most precious way of “publicity”, Muito obrigado ;O)

Partnership and support:

NGO´s and Cool Spots in Porto:
Casa da Horta – Associação CulturalWeb: http://www.casadahorta.pegada.net/

Accomodation and Alternative Tourism:

Portugal Green StaysWeb: www.greenstays.pt facebook: https://www.facebook.com/GreenStays

Rotas Solidárias / Solidarity Routes (InComunidade)Web: www.rotassolidarias.org

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um Porto para “Inglês ver”… e consumir, por Pedro Jorge Pereira*

Um Porto para “Inglês ver”… e consumir
por Pedro Jorge Pereira*, Abril de 2016


Nos anos mais recentes o Porto tem assistido a um aumento sem precedentes da actividade turística na cidade e também na própria região envolvente.
No contexto ainda considerado de “retracção” económica actual, esse crescimento é louvado por quase todos e perspectivado como a “galinha dos ovos de ouro” da cidade e do país.
O “turismo” é quase idolatrado como uma “vaca sagrada” e todo o investimento que “rime” de alguma forma com turismo é aplaudido de forma praticamente unânime pelos mais diversos “agentes” e sectores.
O turismo é pois a “panaceia” para todos os “males” da cidade, alguns deles bem conhecidos e agudizados nos últimos anos pela política “austeritária” do anterior governo: pobreza, exclusão, desemprego, etc.
Mas, e roçando quase a “heresia” ao questionar tão sagrado “Deus”, será que de facto o turismo é a panaceia de todos os males da cidade? Sendo ainda mais ousado: Será que não estará o próprio turismo a contribuir para o agudizar e mesmo para o surgimento de diversos problemas consideráveis?
Antes de acrescentar qualquer outro elemento de reflexão devo salientar que não tenho nada contra o turismo. Aliás, gosto imenso de, ao percorrer as ruas da nossa bela cidade, escutar os idiomas de diferentes países e culturas. Gosto dessa dimensão cosmopolita e intercultural da cidade. O que me deixa bastante triste, nomeadamente à noite é, ao percorrer essas mesmas ruas do centro histórico, já quase não escutar pessoas a falar português com o típico sotaque tripeiro. A principal razão para não as escutar prende-se com o facto de elas serem cada vez menos. Estamos a caminhar para a ridícula situação de os tripeiros a viver no centro histórico estarem a tornar-se numa “espécie em vias de extinção”. Analisando os dados dos últimos censos demográficos (2011) constatamos que em cerca de 10 anos (relativamente a 2001portanto, data dos anteriores censos) essa redução se cifrou na ordem dos 30%! Ou seja, estamos a falar na perda de cerca de 1/3 da população em cerca de 10 anos!
Fenómeno tanto mais grave quando verificamos que essa perda corresponde a uma tendência já fortemente acentuada nas últimas duas ou três décadas anteriores.
Facto tanto mais grave se considerarmos, do ponto de vista histórico, que as únicas situações em que este fenómeno de acentuado decrescimento aconteceu foram situações “catastróficas” de graves epidemias ou de guerra. Talvez a “gentrificação” da cidade possa ser considerada, ela própria, como uma espécie de epidemia.
E é nesta fase que colocamos a questão: mas em que medida é o que “turismo” se relaciona com esses fenómenos?
O turismo não é, afinal de contas, uma boa forma de incentivar a requalificação do degradado património habitacional da cidade e muito em particular do centro histórico?
Bom, em parte pode ser, em parte é, mas noutra parte não menos menosprezável o turismo é, actualmente, um dos fenómenos que mais contribui para uma acentuada inflação dos preços das habitações no centro histórico. Face ao aumento da procura turística ocorre também um aumento da oferta em termos de alojamento. Aumento esse que atinge proporções tais que torna praticamente impossível aos habitantes locais poderem continuar a habitar o centro histórico. Ou aos não locais das periferias, nomeadamente aos jovens de classes sociais que não as mais “elevadas”, de poderem ir viver para o centro histórico.
Então, muitos dos poucos inquilinos “tripeiros” que ainda permanecem no centro histórico são, de alguma forma, “convidados” a sair para que essas habitações possam ser convertidas em actividade turística e assim possam gerar receitas mais “apetitosas” para os proprietários dos imóveis. Dessa forma os hostels, hotéis e, sobretudo, os chamados “apartamentos turísticos” têm surgido um pouco como cogumelos pela cidade e muito em particular no centro histórico.
Por exemplo num artigo de 28 de Janeiro de 2016 podemos verificar que “O Porto tem actualmente 30 pedidos de licenciamento para novos hotéis”. (1)
O principal problema é que o centro histórico está-se a tornar num local sem “habitantes locais”. O principal problema não é termos uma cidade visitada por turistas, mas sim, e cada vez mais, uma cidade cada vez mais despojada de habitantes locais e povoada… só de turistas.
Uma outra dimensão relevante ou, diria antes, preocupante, prende-se com a vertente do comércio. Tenho vindo a observar e estudar um pouco o “fenómeno” do “Comércio Tradicional” na cidade do Porto. O Porto ao longo da história tem vindo a ser uma das cidades do país com maior tradição mercantil e comerciante. O Comércio Tradicional, nomeadamente no que diz respeito a diversos estabelecimentos comerciais que fazem parte do património cultural e arquitectónico da cidade, tem vindo também a desaparecer a um ritmo muito acentuado.
No seu lugar vemos surgir lojas de souvenirs turísticos “made in china” ou então lojas gourmet para “Inglês” ver e consumir. Note-se que com “inglês” nos estamos a referir a qualquer turista “endinheirado”, sendo habitualmente da Alemanha, França, Estados Unidos, Japão, etc., ou mesmo turistas provenientes das classes mais altas de países chamados de “economias emergentes” como a China ou Índia.
Ao percorrer, por exemplo, a Rua do Almada, deparo-me com uma antiga “tabacaria” do centro transformada em “Loja Gourmet”, com uma loja da “Editora Nacional” convertida também numa loja gourmet no piso térreo de mais um recente hotel, com uma antiga papelaria quase centenária transformada em loja de souvenirs foleiros “made in china” e poderia continuar por aí fora…
Creio que a maior parte das pessoas não tem noção, ou pára sequer por um instante, para reflectir sobre a tremenda perda que significa o desaparecimento irreversível de cada um desses estabelecimentos. Lugares de história e de estórias… lugares onde se escrevia e replicava a memória imaterial local… locais repletos de autenticidade, de essência, de vida. Lugares que estavam longe de se cingir à sua mera função “comercial” mas, antes até mesmo disso, lugares que podemos considerar como espaços culturais característicos.
É evidente que, da mesma forma como não pode ser considerada como a “panaceia” para todos os males (que é um pouco o que está a suceder), o “turismo de massas” também não é o “culpado” de tudo… mas a dimensão das responsabilidades que tem neste quadro mais amplo não pode ser menosprezada …
As próprias políticas institucionais de reabilitação têm ido muito mais no sentido de criar um Porto “gourmetizado” do que propriamente no sentido de criar um Porto “para todos”, nomeadamente para os próprios locais. Aquilo que se pretende (e se está a conseguir) impor é um Porto “chique” ao agrado de quem vier provido de um elevado poder de compra … um Porto que se sobrepõe a um Porto popular, tradicional, característico. Também todo um património “imaterial” feito de estórias, vivências, memória que desaparece.
Observe-se por exemplos os diversos quarteirões já “recuperados” (para quem?) pela Sociedade de Reabilitação Urbana.
Os próprios nativos são considerados como uma “fauna” incómoda que convém manter escondida nas periferias… para o centro são bem-vindos somente aqueles que souberem servir e agradar ao consumidor turístico. Por vezes em postos de trabalho também eles de alguma forma precários.
No fundo, a principal mensagem que gostaria de deixar, é que o Porto “verdadeiro”, “autêntico”, o Porto “Porto”, está a desaparecer aos poucos mas, ao mesmo tempo, a um ritmo vertiginoso.
A integração da população não local e o desenvolvimento da actividade turística deveria ser feita de forma a respeitar e não a constituir uma ameaça para as populações e identidade local.
De resto, esta reflexão não pretende ser um “manifesto” contra o turismo mas somente, e sobretudo, uma mensagem para relembrar que há um ponto a partir do qual algo se torna claramente excessivo e muitos dos seus efeitos e potencial positivo começam a ser sufocados por tudo aquilo que tem de potencialmente negativo. E é isso que, muito claramente, está a acontecer no Porto (e não só claro, está a acontecer no Porto como em muitos outros locais pelo mundo fora).
Esta reflexão também não pretende colocar em causa muito do que tem sido feito de positivo devido ao desenvolvimento turístico na cidade… mas serve simplesmente para recordar… e essa noção parece andar tão esquecida… que o Porto é muito mais do que o vinho do Porto, do que os cruzeiros no Douro e do que a gastronomia… o Porto é muito mais do que isso mas parece estar a ser reduzido a essas imagens/postais turísticos para “Inglês ver” e, sobretudo “consumir”.
O Porto é as vivências, as memórias “vivas” da cidade, a simplicidade e autenticidade das gentes, as tradições, as associações de bairro (as poucas que ainda existem e resistem), as estórias que os “últimos” antigos ainda guardam e preservam… estórias e memórias que tendem a extinguir-se quando também eles partem … para um bairro nos arredores ou quando partem deste mundo.
O Porto não é, ou pelo menos não deveria ser, pelo menos assim acredito, um mero “pacote turístico” para estrangeiro consumir …
Mas é precisamente nisso que está a ser convertido …
O Porto é aquele Porto “único” que ainda resiste mas que vai gradualmente desaparecendo à medida que cada habitante parte, que cada loja tradicional encerra, que cada estória fica para sempre esquecida nas brumas da memória.
O Porto não é esse lugar onde os próprios “tripeiros” não são bem-vindos a não ser que tenham alguma finalidade nesse propósito magnânimo de agradar ao “Deus” turista … esse lugar onde a escala de prioridades se encontra profundamente deturpada.
O Porto não pode ser essa cidade cada vez menos “Porto”… naquilo que de mais autêntico ainda tem e possui: sobretudo as “geografias humanas e populares”.
A este ritmo, e se a actual situação persistir, vai restar muito pouco Porto autêntico… vamos ter um óptimo “Porto” para “consumo externo” mas um Porto cada vez mais despojado de autenticidade e de… alma. Mais grave ainda: um Porto despojado de todo o seu valor humano.
Acredito que não é esse Porto que queremos, mas é precisamente esse Porto que estamos a ver ser criado.
Longe de pretender numa simples reflexão abordar todas as dimensões e aspectos mais profundos contidos nesse fenómeno mais amplo e algo complexo que é a “gentrificação”… não posso contudo deixar de lançar este repto e “grito de alerta” que, volto a salientar, não é um manifesto contra o turismo em si mesmo. Simplesmente ainda quero continuar a acreditar que, apesar de tudo, um outro modelo e “escala” de turismo é possível.
Na minha opinião, a linha que separa o ponto no qual o turismo é algo de positivo para a economia e cultura da cidade do ponto onde o turismo se torna em tudo aquilo que se está a tornar no Porto (e noutros locais um pouco por todo o mundo), situa-se na diferença entre o turismo contribuir para os visitantes poderem conhecer e experienciar uma determinada realidade local/cultural e o turismo se sobrepor a essa mesma realidade, contribuindo para o seu desaparecimento ou descaracterização.
Á medida que o turismo cresce a um ritmo demasiadamente acelerado há uma tendência para, com muita facilidade, esse ponto ser rapidamente ultrapassado. É precisamente isso que tem vindo a acontecer no Porto.
Qual é a solução? Proibir o turismo? Impor quotas? Bom, pessoalmente creio que solução passa pelo investimento público em equipamentos públicos para a população local e, sobretudo, por uma política de habitação orientada para a reabilitação do património arquitectónico local com “custos controlados” para a população local. Lançando simultaneamente medidas de atracção da população e de pequenos negócios diversificados para o centro cidade. Lançando políticas públicas de apoio às associações locais.
Infelizmente, pelo menos daquilo que tenho conhecimento, pouco ou mesmo nada está a ser feito nesse sentido.
E a questão é que se não for feito hoje, amanhã já será, muito provavelmente, tarde demais.
Por muito importantes que possam ser todos os euros e dólares trazidos com o boom do turismo a verdade é que o “dinheiro” do turismo deveria ser um meio para o desenvolvimento da economia local (e seria interessante estudar em que medida é que estará efectivamente, ou não, a ser) e não tornar-se ele próprio no “fim” derradeiro de toda a vida e actividade da cidade. Ameaçando nomeadamente toda a actividade económica e social “além-turismo”.
Já para não falar que se está a criar uma dependência extremamente perigosa: Se um dia os fluxos turísticos mudarem (como regularmente acontece) de “direcção” o que irá acontecer a toda uma economia que se tornou excessivamente dependente desse mesmo turismo?
Não tenho a resposta para todas as questões, nomeadamente para a questão de “por onde devemos ir?”. Tenho obviamente algumas ideias e possíveis sugestões, assim como os próprios locais terão certamente (e será que alguém está interessado em os ouvir?), mas não tenho grandes dúvidas de que não devemos continuar a ir pelos caminhos que têm sido seguidos de forma, diria, praticamente “cega”. Será que há mais alguém interessado em ver essa realidade? Apesar daquilo que a realidade parece querer evidenciar nos levar a acreditar no oposto, gosto de continuar a acreditar que sim.

* Pedro Jorge Pereira
Formador e Activista Eco-Social
Dinamizador, entre outros, do Projecto Terramote351 – Desenvolvimento, Formação e Turismo Eco-Social.

Correcção Ortográfica:
Cristina Gomes

Terramote351 - Desenvolvimento, Formação e Turismo Eco-social

Grande Porto (Terramote351) - Ambiente, Cidadania, Cultura e Reflexão no Google Groups: https://groups.google.com/forum/#!forum/terramote351_grandeporto
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Pedro Jorge Pereira


(1) Agência Lusa (28 de Janeiro de 2016) Multiplicação de hotéis no Porto pode pôr em causa Património da Humanidade. [Em linha]. Disponível em <https://www.publico.pt/local/noticia/secretaria-de-estado-alertou-para-o-numero-de-hoteis-no-porto-e-apoiou-candidatura-das-caves-de-gaia-a-patrimonio-mundial-1721711> [Consultado em 28 de Janeiro de 2016]

segunda-feira, 21 de março de 2016

esquecido esquecimento


Quando se fechou aquela mesmo porta, agora repleta de ferrugem e esquecimento, pela última vez?
Quando escutou pela última vez o riso de uma criança a soltar-se no horizonte dos montes em redor?
Poucos desígnios são tão trágicos para uma aldeia como o de uma escola que fecha … os desígnios das crianças que já não há … ou que, havendo, mal chegam para preencher as quatro paredes de uma escola tão modesta e humilde …
Poucos desígnios são tão trágicos como o de assistir ao tempo esculpindo o seu mais inexorável esquecimento nas paredes, nos poucos móveis que ficaram como testemunho museológico, ou num ou outro caderno que já não soletra senão a tez do pó e da sujidade …
Quando se acreditou pela última vez num futuro que não fosse uma contagem decrescente até ao “último” que ainda persiste …
ainda há esperança?
Por agora ficam estas imagens que comovem tão profundamente o espírito …

terça-feira, 15 de março de 2016

Meeting Porto “Side B” - Friday, 18th of March, Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto

Meeting Porto “Side B” - Friday, 18th of March Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto



 “Terramote351” – Meeting Porto “Side B”, the real Porto
Meeting Porto “Side B” (International Eco-Social Tours) is a project inside the Terramote351 Project that aims to guide foreigner visitors or inhabitants through the less well known side of Porto, Porto side B. Therefore it´s not a conventional touristic tour. It´s a tour focusing on social, ecological, cultural aspects, in spite of the fact that history is always a very relevant element.
Discovering the past, roaming the present and dreaming the future are proposals contained in this walk by some of the hidden or forgotten treasures from Porto city. Old rural farms, old nobel houses, city gardens, sublime panoramic views… and a lot, lot more. Above all, a Tour that for sure will surprise you at each step.

Terramote351 – Intervention and Eco-Social Tours
Terramote351 is a pioneer project, arising from Porto city, and it exists to develop the principals and values of Eco-Social tourism.


Always with the purpose to aware people to the local realities throughout Eco-Social Tours with historical, cultural and, above all, Eco-social relevance.
The tours work in an informal and familiar way. At the tours people interact and share: Them experiences, knowledge and visions.
They also are discovery and adventure tours, where secrets of the urban and rural spaces are unraveled with all their…plainness.

Terramote351 International Eco-Social Tours – Meeting Porto “Side B”
Friday, 18th of March Circuit 6 – Sto Ildefonso into the centre of Porto (around the centre of Porto and about the many different stories you can find in the streets of this ancient district)
3.15 pm

Meeting point: In “Praça da Batalha”, in front of Sto Ildefonso Church (very near Rua de Sta Catarina):

Important information about the tour:

Difficulty: accessible

Time: around 2h30

Logistics: take comfortable clothing adaptable to the climate circumstances of the day.
 
Participation fee: with the amount that you feel “Fair” in the end of the circuit (open contribution, minimum suggested 5,00)

Registrations: maximum of 12 participants (it will be an activity with a reduced number of participants) and the places will be taken when the registrations are done with confirmation.

Lunch: we will probably have lunch in “Casa da Horta – Cultural Association” before the tour, so you are welcomed if you want to join us and we can discuss already a bit about some of the aspects that we are going to observe during the tour

Other Reservations: It´s possible, if booked in advanced, to book private Eco-Social Tour with Terramote351 Project. Contact us!

How to apply:
Book your tour sending your personal information to:

or by mobile phone:
(+351) 93 447 6236 (Pedro J. Pereira)

or in Casa da Horta

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Note: Terramote351 is a project with a really informal and personal nature, so it’s an activity that it is not covered by any type of insurance, the participants are responsible for anything that happens, or, depending on the perspective, the destiny is… ;O) The contribution is destined to support the various organization costs and to support the Terramote351 - Intervention and Eco-Social Tours project development.
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Casa da Horta – Associação CulturalWeb: http://www.casadahorta.pegada.net/

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Rotas Solidárias / Solidarity Routes (InComunidade)Web: www.rotassolidarias.org